A
vida de cada um de nós é uma trajetória específica. Somos a soma de nossas
experiências, sonhos, anseios e amores, resultantes dos caminhos que trilhamos,
dos lugares por onde passamos, das pessoas com que convivemos. Somos todos,
cada de um modo, um filme que traduz alegrias e tristezas, lágrimas e sorrisos,
momentos de ternura ou desconforto. Mas, sem dúvida, acionado por um mecanismo
que muitas vezes foge a nosso controle, o filme vem à tona. Assim é que,
passadas algumas décadas vividas, pai e avô que sou, tendo viajado por todo o
Brasil e boa parte do mundo, tendo trabalhado em diversas atividades, sempre
ligado ao convívio técnico, ou à condução, à formação acadêmica ou
profissional, e à orientação de pessoas, descobri possuir um tesouro. Um raro
tipo de tesouro, fruto de um cacoete pessoal.
Sou
um entre nove irmãos de uma família de origens internacionais, na qual música,
literatura, política e aventura foram ingredientes sempre presentes em nosso
dia a dia. Por parte de mãe, nascida na Argentina, avôs russos, filhos de
russos e alemães. Por parte de pai, brasileiro, avôs também brasileiros,
descendentes de portugueses e franceses, e – de forma mais longínqua – de
ingleses. Minha mãe, Mamita (Mãezinha, em espanhol) para todos, cheia de vida
ainda hoje, em seus muitos anos de lutas, coragem, e desafios, era uma grande
pianista, ampla cultura, uma leitora fervorosa, devoradora de partituras, com a
mesma voracidade que percorria obras e mais obras literárias.
Meu
pai, militar de formação, mas muito cedo ex-militar, advogado, e – mais que
tudo – um revolucionário que lutou no Brasil e no mundo, deixou suas pegadas de
ideal e liberdade por onde passou. Um homem que pagou o pesado preço de
enfrentar o poder e defender direitos universais, sem, no entanto, nunca abrir
mão da dignidade, da ética e da solidariedade. Por outro lado, conviveu, nos
permitindo momentos de proximidade, com grandes homens, como Cândido Portinari,
Jorge Amado, Apolônio Soares de Carvalho, Graciliano Ramos, Luis Carlos
Prestes, Aporelli, o “Barão de Itararé”, Érico Veríssimo, Leonel de Moura
Brizola, além de outros que, na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola,
lutaram ou lá estiveram desempenhando outras atividades.
E,
justamente, a partir desta composição de fatos marcantes, um grande período de
nossas vidas marcado por mudanças de cidades, e de país às vezes, muita
leitura, música, e – em casa, quando reunidos – longas conversas sobre o que
fosse o mundo, com toda a loucura de suas guerras, com toda a loucura dos
tiranos, com todo o sofrimento dos menos favorecidos, foi que surgiu meu
cacoete: colecionar. Nos jornais que meus pais liam, colecionava biografias.
Por cantarmos juntos, com minha mãe ao piano, colecionei letras de música. Ao
começarmos a curtir cinema, colecionei recortes de anúncios dos filmes em
cartaz, tornando-me, muito cedo, um cara que sabia muito de atores e atrizes
que mais atuavam, além de um amante desta arte. Não poucas vezes, já rapazote,
me peguei assistindo mais que um filme em um mesmo dia. Um hábito que custava
caro, mas que deixou em mim indeléveis marcas, em cenas de inesquecíveis
efeitos.
Já trabalhando e ainda estudando, devido ao longo tempo gasto em
deslocamentos de ônibus, chegava a ler um romance em dois ou três dias. E, por
onde andei depois, em constantes passos de minha vida de cigano, profissional
de múltiplas transferências, exercitei o “cantor de banheiro” que existia em
mim. Mas o fiz desfrutando sempre de companhias agradáveis, e algumas famosas,
como Roberto Barradas, Adilson Ramos, e outros, donos de grande sucesso, companheiros
ocasionais de noites infindas de inspiração e saudosismo, como Altemar Dutra,
em Olinda, famoso, mas cheio de simplicidade, como se fosse um simples mortal,
ou Taiguara – que belo amigo, compositor, cantor, e companheiro de lutas em
trabalhos pela solidariedade internacional - mais adiante, eu já morando no Rio
de Janeiro.
Da
mesma forma, tive a honra de dividir microfones em serestas com Claudete Soares
e Tito Madi, cantar, me revezando com Ivon Couri, ou com José Carlos Vinhas ao
piano. Com quanto prazer desfrutei das conversas de fim de noite, no saudoso
Chico’s Bar, na Lagoa, com Carlos Kola, com Cauby Peixoto, Ivan Lins, Zezé Mota
ou Beth Mendes. Com algumas destas personalidades dividimos mais que o momento
fortuito, como com Miéle, apresentando um show de meu primo Victor Biglione,
com quem levei longa conversa no Centro Cultural da Estácio de Sá, na Érico
Veríssimo.
E
esta minha caminhada pela vida, que me apresentou e aproximou de inesperados
amigos, também, por vezes, me afastou destes, ora por dias, ora por semanas ou
meses, e de meus filhos, pais e irmãos, e – também – outros, amigos e
companheiros com que convivi desde criança. Foi a partir destes
distanciamentos, destas despedidas e retornos, que fazem parte da vida de quem
vive intensamente, que passei a colecionar já adulto. Por anos a fio, guardei
cartas, cartões, bilhetes, telegramas, às vezes uma simples folha de papel,
rabiscada sem compromisso, mas que continha o registro de algum belo momento.
Por vezes, mantive em minhas mãos um daqueles cartões em que, com poucas
palavras, se envia flores.
Por vezes uma placa, recebida como homenagem,
entregue por grupos de amigos, ou por colegas de trabalho, quando me desloquei
para novos desafios em outras cidades, ou em uma formatura, de turmas que
ajudei de alguma forma a se graduarem. Fui
descobrindo, ainda com pouca malícia, com quase nada de “instinto de defesa”,
falando franco, sorrindo fácil, que um ambiente de trabalho nem sempre nos
permite sermos exatamente como somos. Exige examinar cada um, descobrir
fraquezas, avaliar reações, entender vaidades, como caminhar em terreno minado.
No
departamento de pessoal, trabalhava Maria Tereza, parte de um grupo de cinco ou
seis componentes. Ainda hoje, depois de tantos anos, me é custoso entender
porque funcionários de uma área como esta, de “recursos humanos”, quase sempre
reagem como de fossem os donos da empresa. Dão a nítida impressão de que é seu
o dinheiro que pagará o aumento de salário, parecem ter prazer quando podem
descontar um dia de trabalho ou aplicar qualquer penalidade, e, na maioria das
vezes, recebem e atendem os demais colegas com frieza, desprezo, má vontade
mesmo. Maria Tereza não se enquadrava nestas características.
Era
educada, olhava nos olhos, falava claro, até sorria! Não era bonita. Vestia-se
e comportava-se como alguém que vai à missa, a Bíblia sob o braço. Mas sempre
nos entendemos muito bem. Escutava-me pacientemente, mesmo quando eu – coisa
até hoje muito minha – entrava em sua sala apenas para dar um bom dia rápido e
contar uma piada. E, diga-se, nem sempre minhas piadas eram “de salão”. Mas
parece que entendia que o que eu queria era provocar o riso, descontrair o
ambiente, tirar o peso que nossas responsabilidades vão colocando sobre nossos
ombros à medida em que assumimos funções de chefia. E que é quando descobrimos
que é muito mais sadio ficar longe do poder.
Conviver
com altos cargos é desafio de vida. Normalmente é o momento em que nos
questionamos se valeu a pena ser competente e lutar para chegar lá. É quando
descobrimos a política, as barganhas, a infidelidade, a falta de dignidade, a
quase inexistência de lealdade, o verdadeiro caráter de cada um. E, é quando
descobrimos que as pessoas vendem a alma ao diabo por muito pouco. O que hoje
se chama de “assédio moral” sempre existiu. E, à época, era exercido muito mais
frontalmente, com total desfaçatez. Não havia líderes, existiam chefes. Ninguém
pedia, mandava. E o faziam, por vezes, sem ter preparo até para mandar. Foi
isto que gerou fortes reações, não só quando fui promovido, mas quando
perceberam que eu comandava minhas equipes através do diálogo, do orientar
constantemente, do mostrar os caminhos, e de andar junto.
(segue em "Um pouco de mim II)
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