segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um pouco de mim


A vida de cada um de nós é uma trajetória específica. Somos a soma de nossas experiências, sonhos, anseios e amores, resultantes dos caminhos que trilhamos, dos lugares por onde passamos, das pessoas com que convivemos. Somos todos, cada de um modo, um filme que traduz alegrias e tristezas, lágrimas e sorrisos, momentos de ternura ou desconforto. Mas, sem dúvida, acionado por um mecanismo que muitas vezes foge a nosso controle, o filme vem à tona. Assim é que, passadas algumas décadas vividas, pai e avô que sou, tendo viajado por todo o Brasil e boa parte do mundo, tendo trabalhado em diversas atividades, sempre ligado ao convívio técnico, ou à condução, à formação acadêmica ou profissional, e à orientação de pessoas, descobri possuir um tesouro. Um raro tipo de tesouro, fruto de um cacoete pessoal.

Sou um entre nove irmãos de uma família de origens internacionais, na qual música, literatura, política e aventura foram ingredientes sempre presentes em nosso dia a dia. Por parte de mãe, nascida na Argentina, avôs russos, filhos de russos e alemães. Por parte de pai, brasileiro, avôs também brasileiros, descendentes de portugueses e franceses, e – de forma mais longínqua – de ingleses. Minha mãe, Mamita (Mãezinha, em espanhol) para todos, cheia de vida ainda hoje, em seus muitos anos de lutas, coragem, e desafios, era uma grande pianista, ampla cultura, uma leitora fervorosa, devoradora de partituras, com a mesma voracidade que percorria obras e mais obras literárias.

Meu pai, militar de formação, mas muito cedo ex-militar, advogado, e – mais que tudo – um revolucionário que lutou no Brasil e no mundo, deixou suas pegadas de ideal e liberdade por onde passou. Um homem que pagou o pesado preço de enfrentar o poder e defender direitos universais, sem, no entanto, nunca abrir mão da dignidade, da ética e da solidariedade. Por outro lado, conviveu, nos permitindo momentos de proximidade, com grandes homens, como Cândido Portinari, Jorge Amado, Apolônio Soares de Carvalho, Graciliano Ramos, Luis Carlos Prestes, Aporelli, o “Barão de Itararé”, Érico Veríssimo, Leonel de Moura Brizola, além de outros que, na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola, lutaram ou lá estiveram desempenhando outras atividades.

E, justamente, a partir desta composição de fatos marcantes, um grande período de nossas vidas marcado por mudanças de cidades, e de país às vezes, muita leitura, música, e – em casa, quando reunidos – longas conversas sobre o que fosse o mundo, com toda a loucura de suas guerras, com toda a loucura dos tiranos, com todo o sofrimento dos menos favorecidos, foi que surgiu meu cacoete: colecionar. Nos jornais que meus pais liam, colecionava biografias. Por cantarmos juntos, com minha mãe ao piano, colecionei letras de música. Ao começarmos a curtir cinema, colecionei recortes de anúncios dos filmes em cartaz, tornando-me, muito cedo, um cara que sabia muito de atores e atrizes que mais atuavam, além de um amante desta arte. Não poucas vezes, já rapazote, me peguei assistindo mais que um filme em um mesmo dia. Um hábito que custava caro, mas que deixou em mim indeléveis marcas, em cenas de inesquecíveis efeitos.

Já trabalhando e ainda estudando, devido ao longo tempo gasto em deslocamentos de ônibus, chegava a ler um romance em dois ou três dias. E, por onde andei depois, em constantes passos de minha vida de cigano, profissional de múltiplas transferências, exercitei o “cantor de banheiro” que existia em mim. Mas o fiz desfrutando sempre de companhias agradáveis, e algumas famosas, como Roberto Barradas, Adilson Ramos, e outros, donos de grande sucesso, companheiros ocasionais de noites infindas de inspiração e saudosismo, como Altemar Dutra, em Olinda, famoso, mas cheio de simplicidade, como se fosse um simples mortal, ou Taiguara – que belo amigo, compositor, cantor, e companheiro de lutas em trabalhos pela solidariedade internacional - mais adiante, eu já morando no Rio de Janeiro.

Da mesma forma, tive a honra de dividir microfones em serestas com Claudete Soares e Tito Madi, cantar, me revezando com Ivon Couri, ou com José Carlos Vinhas ao piano. Com quanto prazer desfrutei das conversas de fim de noite, no saudoso Chico’s Bar, na Lagoa, com Carlos Kola, com Cauby Peixoto, Ivan Lins, Zezé Mota ou Beth Mendes. Com algumas destas personalidades dividimos mais que o momento fortuito, como com Miéle, apresentando um show de meu primo Victor Biglione, com quem levei longa conversa no Centro Cultural da Estácio de Sá, na Érico Veríssimo.

E esta minha caminhada pela vida, que me apresentou e aproximou de inesperados amigos, também, por vezes, me afastou destes, ora por dias, ora por semanas ou meses, e de meus filhos, pais e irmãos, e – também – outros, amigos e companheiros com que convivi desde criança. Foi a partir destes distanciamentos, destas despedidas e retornos, que fazem parte da vida de quem vive intensamente, que passei a colecionar já adulto. Por anos a fio, guardei cartas, cartões, bilhetes, telegramas, às vezes uma simples folha de papel, rabiscada sem compromisso, mas que continha o registro de algum belo momento. Por vezes, mantive em minhas mãos um daqueles cartões em que, com poucas palavras, se envia flores.
 
Por vezes uma placa, recebida como homenagem, entregue por grupos de amigos, ou por colegas de trabalho, quando me desloquei para novos desafios em outras cidades, ou em uma formatura, de turmas que ajudei de alguma forma a se graduarem. Fui descobrindo, ainda com pouca malícia, com quase nada de “instinto de defesa”, falando franco, sorrindo fácil, que um ambiente de trabalho nem sempre nos permite sermos exatamente como somos. Exige examinar cada um, descobrir fraquezas, avaliar reações, entender vaidades, como caminhar em terreno minado.
 
No departamento de pessoal, trabalhava Maria Tereza, parte de um grupo de cinco ou seis componentes. Ainda hoje, depois de tantos anos, me é custoso entender porque funcionários de uma área como esta, de “recursos humanos”, quase sempre reagem como de fossem os donos da empresa. Dão a nítida impressão de que é seu o dinheiro que pagará o aumento de salário, parecem ter prazer quando podem descontar um dia de trabalho ou aplicar qualquer penalidade, e, na maioria das vezes, recebem e atendem os demais colegas com frieza, desprezo, má vontade mesmo. Maria Tereza não se enquadrava nestas características.
 
Era educada, olhava nos olhos, falava claro, até sorria! Não era bonita. Vestia-se e comportava-se como alguém que vai à missa, a Bíblia sob o braço. Mas sempre nos entendemos muito bem. Escutava-me pacientemente, mesmo quando eu – coisa até hoje muito minha – entrava em sua sala apenas para dar um bom dia rápido e contar uma piada. E, diga-se, nem sempre minhas piadas eram “de salão”. Mas parece que entendia que o que eu queria era provocar o riso, descontrair o ambiente, tirar o peso que nossas responsabilidades vão colocando sobre nossos ombros à medida em que assumimos funções de chefia. E que é quando descobrimos que é muito mais sadio ficar longe do poder.
 
Conviver com altos cargos é desafio de vida. Normalmente é o momento em que nos questionamos se valeu a pena ser competente e lutar para chegar lá. É quando descobrimos a política, as barganhas, a infidelidade, a falta de dignidade, a quase inexistência de lealdade, o verdadeiro caráter de cada um. E, é quando descobrimos que as pessoas vendem a alma ao diabo por muito pouco. O que hoje se chama de “assédio moral” sempre existiu. E, à época, era exercido muito mais frontalmente, com total desfaçatez. Não havia líderes, existiam chefes. Ninguém pedia, mandava. E o faziam, por vezes, sem ter preparo até para mandar. Foi isto que gerou fortes reações, não só quando fui promovido, mas quando perceberam que eu comandava minhas equipes através do diálogo, do orientar constantemente, do mostrar os caminhos, e de andar junto.
(segue em "Um pouco de mim II)

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