Porto Alegre fervia naquele distante
1923, ano agitado, em
que Chimangos e Maragatos se enfrentavam em lutas sangrentas,
como se novos Farrapos ressurgissem nos Pampas.
Borges de Medeiros, governador perpétuo
do Rio Grande do Sul, encarava os caudilhos Republicanos, estes liderados por
Flores da Cunha e Osvaldo Aranha. E nas ruas da cidade, depois do toque de
recolher, quando era proibido circularem veículos , alguns caminhões, com
laçadores, caçavam voluntários para formar as tropas de defesa do Governo, levados
para campos de treinamento nos Corpos Provisórios, que gerariam milícias,
depois agregadas à Brigada Militar.
Os jornais Federação e Ultima Hora,
favoráveis ao governo e oposição, noticiavam os mesmos fatos, atribuindo
vitórias de acordo com as conveniências de seus editores. Era difícil saber
realmente o que se passava. A luta fraticida fazia vítimas entre o povo,
manobrado e iludido por informações, muitas vezes distorcidas.
Uma tarde, em frente ao Grande Hotel,
na Praça da Alfândega, caminhavam Mário e Carla, namorados, mãos dadas, junto
com Joice Almeida, companheira de Carla como voluntária na Cruz Vermelha. De
repente, tiros, primeiro afastados, depois mais próximos. E, antes que pudessem
esboçar qualquer gesto de protegerem-se, viram Joice cair, a testa perfurada
por uma bala perdida. Justo ela, uma das muitas jovens que se arriscavam para
ajudar feridos de uma luta que não haviam escolhido facção.
O ano foi praticamente todo tumultuado.
As coisas só acalmariam quando o Governo Federal mandou para o estado seu
Ministro da Guerra, General Setembrino de Carvalho. Mas, daquele dia, algo mais
ficou em Mário Ávila do que o gesto de proteger Carla empurrando-a junto à
parede do Hotel e ficando a sua frente. Ficou a preocupação com os efeitos
hediondos de uma luta pelo poder. O Rio Grande sangrava por suas próprias mãos.
Que gosto, que prazer insano nutriam
esses líderes por tal tipo de combate? Para ele, ainda muito jovem e cheio de
planos, mas de vida tranqüila e sem dificuldades, era custoso assimilar tais
fatos.
Com certeza fora ali naquela tarde,
que, em sua mente feita de planos férteis e expectativas serenas, despertara uma
curiosidade que não o deixaria mais: por quê? E lhe veio à lembrança a imagem
de Carla quando a conhecera.
Desciam, ele e alguns amigos, a ladeira
da Marechal Floriano, que ia da Rua Duque de Caxias, passando pelo Colégio
Sevigné, saindo na praça em frente a Demétrio Ribeiro, rua em que, junto com
dois colegas de faculdade, residia, durante o ano, em uma pensão.
No meio da subida, sentido contrário,
saia azul plissada, blusa branca de laço também azul preso ao colarinho, livros
nos braços de encontro ao peito, vinha Carla, conversando com uma colega
normalista.
Era o momento de saída da turma da
manhã na tradicional escola, caracterizada pelo essezinho bordado na blusa,
sobre o bolsinho do lado do coração das meninas que lá estudavam.
E ao cruzarem um com o outro, a calçada
estreita, bateram levemente os braços, mas o suficiente para assustá-la e fazer
cair um de seus cadernos ao chão.
De imediato, voltando-se para ela,
Mário apanhou o caderno devolvendo-o. Ao fazê-lo, quando Carla estendeu a mão,
prendeu-lhe os dedos por breve instante. Olhou-a bem nos olhos e, talvez
influenciado pela companhia dos amigos, resolveu brincar:
-Um escravo aos pés de uma bela
professorinha.
-Você não é negro. Eu não sou
professora ainda, nem tão bela, e largue minha mão, falou Carla, entre
assustada com o fato e consigo mesma por ter reagido tão de pronto.
Os amigos, todos eles, riram muito,
enquanto Mário, entre desconcertado e arrependido, ficara sem ter o que dizer. Sabia
que o Moisés Velhinho, um deles, e o mais talentoso dos estudantes com que
convivia, iria depois massacrá-lo com suas provocações. Deu de ombros, não sem
antes voltar-se a tempo de ver Carla dobrar a esquina.
A cena não lhe saiu da cabeça. Não era
de seu feitio tomar atitudes como aquela. Que tonto fora ao sentir-se mais
valente perante os próprios colegas. Passado mais ou menos uma semana,
encheu-se de coragem, agora sensata, e foi postar-se em frente ao Sevigné. Tinha
que falar-lhe. Ao vê-la sair, leve, pequena e frágil como parecia ser,
adiantou-se:
-Quero falar-lhe. Ouça-me um minuto.
Preciso me desculpar pelo que fiz no outro dia.
-Não o conheço. Deixe-me passar. Meu
pai é Coronel e posso pedir-lhe que mande prendê-lo caso continue a me
perturbar.
-Pois bem, disse Mário, estufando o
peito à frente de Carla, ou me ouve ou vai ter que mandar me deter mesmo. Não
faça com que me sinta mais idiota do que já estou me sentindo. Tenho cara de
bandido?
Parecia ter vencido sua resistência.
Carla deixou transparecer um meio sorriso e mostrou expressão de quem entrega
os pontos, soltando um muxoxo:
-Muito bem. Fale então.
E, daquela conversa ao início do
namoro, passaram-se uns poucos dias. Mário conhecera seus pais, Coronel
Figueiredo e Dona Áurea, ambos afáveis, ele bem mais velho que ela. Já
transferido por muitas vezes e para muitos lugares, o Coronel adquirira um
conhecimento que independia de sua condição de militar. Não sabia muito bem
esclarecer porque optara pela carreira, mas tinha consciência do nível de vida
que vivia, acima da média, e do respeito que lhe era oferecido por todos com
quanto convivia. Em uma ou outra conversa de fim de semana, deixava escapar
suas mágoas com as promoções que perdera. Admitia não ter um coração de militar
típico, durão, intransigente e insensível na aparência. Questionava com freqüência
alguns dos métodos aplicados nos quartéis e até mesmo fora do convívio da
caserna.
Ao longo dos anos, por conta de sua
inegável capacidade de ouvinte atento e conciliador nas horas de conflitos, em
torno de si criara a imagem de não decidir com presteza, de ser ponderado em
demasia e pouco severo nos julgamentos, não carregando, portanto, o perfil
necessário a um oficial de alta patente, muitas vezes detentor de segredos de
estado.
Restara-lhe o conforto de ser
respeitado por todos como um homem íntegro, e as facilidades de que gozava após
ser deslocado para um posto administrativo.
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