terça-feira, 9 de julho de 2013

Caleidoscópio: Cena histórica no Porto Alegre de Chimangos e Maragatos


Porto Alegre fervia naquele distante 1923, ano agitado, em que Chimangos e Maragatos se enfrentavam em lutas sangrentas, como se novos Farrapos ressurgissem nos Pampas.

Borges de Medeiros, governador perpétuo do Rio Grande do Sul, encarava os caudilhos Republicanos, estes liderados por Flores da Cunha e Osvaldo Aranha. E nas ruas da cidade, depois do toque de recolher, quando era proibido circularem veículos , alguns caminhões, com laçadores, caçavam voluntários para formar as tropas de defesa do Governo, levados para campos de treinamento nos Corpos Provisórios, que gerariam milícias, depois agregadas à Brigada Militar.

Os jornais Federação e Ultima Hora, favoráveis ao governo e oposição, noticiavam os mesmos fatos, atribuindo vitórias de acordo com as conveniências de seus editores. Era difícil saber realmente o que se passava. A luta fraticida fazia vítimas entre o povo, manobrado e iludido por informações, muitas vezes distorcidas.

Uma tarde, em frente ao Grande Hotel, na Praça da Alfândega, caminhavam Mário e Carla, namorados, mãos dadas, junto com Joice Almeida, companheira de Carla como voluntária na Cruz Vermelha. De repente, tiros, primeiro afastados, depois mais próximos. E, antes que pudessem esboçar qualquer gesto de protegerem-se, viram Joice cair, a testa perfurada por uma bala perdida. Justo ela, uma das muitas jovens que se arriscavam para ajudar feridos de uma luta que não haviam escolhido facção.

O ano foi praticamente todo tumultuado. As coisas só acalmariam quando o Governo Federal mandou para o estado seu Ministro da Guerra, General Setembrino de Carvalho. Mas, daquele dia, algo mais ficou em Mário Ávila do que o gesto de proteger Carla empurrando-a junto à parede do Hotel e ficando a sua frente. Ficou a preocupação com os efeitos hediondos de uma luta pelo poder. O Rio Grande sangrava por suas próprias mãos.

Que gosto, que prazer insano nutriam esses líderes por tal tipo de combate? Para ele, ainda muito jovem e cheio de planos, mas de vida tranqüila e sem dificuldades, era custoso assimilar tais fatos.

Com certeza fora ali naquela tarde, que, em sua mente feita de planos férteis e expectativas serenas, despertara uma curiosidade que não o deixaria mais: por quê? E lhe veio à lembrança a imagem de Carla quando a conhecera.

Desciam, ele e alguns amigos, a ladeira da Marechal Floriano, que ia da Rua Duque de Caxias, passando pelo Colégio Sevigné, saindo na praça em frente a Demétrio Ribeiro, rua em que, junto com dois colegas de faculdade, residia, durante o ano, em uma pensão.

No meio da subida, sentido contrário, saia azul plissada, blusa branca de laço também azul preso ao colarinho, livros nos braços de encontro ao peito, vinha Carla, conversando com uma colega normalista.

Era o momento de saída da turma da manhã na tradicional escola, caracterizada pelo essezinho bordado na blusa, sobre o bolsinho do lado do coração das meninas que lá estudavam.

E ao cruzarem um com o outro, a calçada estreita, bateram levemente os braços, mas o suficiente para assustá-la e fazer cair um de seus cadernos ao chão.

De imediato, voltando-se para ela, Mário apanhou o caderno devolvendo-o. Ao fazê-lo, quando Carla estendeu a mão, prendeu-lhe os dedos por breve instante. Olhou-a bem nos olhos e, talvez influenciado pela companhia dos amigos, resolveu brincar:

-Um escravo aos pés de uma bela professorinha.

-Você não é negro. Eu não sou professora ainda, nem tão bela, e largue minha mão, falou Carla, entre assustada com o fato e consigo mesma por ter reagido tão de pronto.

Os amigos, todos eles, riram muito, enquanto Mário, entre desconcertado e arrependido, ficara sem ter o que dizer. Sabia que o Moisés Velhinho, um deles, e o mais talentoso dos estudantes com que convivia, iria depois massacrá-lo com suas provocações. Deu de ombros, não sem antes voltar-se a tempo de ver Carla dobrar a esquina.

A cena não lhe saiu da cabeça. Não era de seu feitio tomar atitudes como aquela. Que tonto fora ao sentir-se mais valente perante os próprios colegas. Passado mais ou menos uma semana, encheu-se de coragem, agora sensata, e foi postar-se em frente ao Sevigné. Tinha que falar-lhe. Ao vê-la sair, leve, pequena e frágil como parecia ser, adiantou-se:

-Quero falar-lhe. Ouça-me um minuto. Preciso me desculpar pelo que fiz no outro dia.

-Não o conheço. Deixe-me passar. Meu pai é Coronel e posso pedir-lhe que mande prendê-lo caso continue a me perturbar.

-Pois bem, disse Mário, estufando o peito à frente de Carla, ou me ouve ou vai ter que mandar me deter mesmo. Não faça com que me sinta mais idiota do que já estou me sentindo. Tenho cara de bandido?

Parecia ter vencido sua resistência. Carla deixou transparecer um meio sorriso e mostrou expressão de quem entrega os pontos, soltando um muxoxo:

-Muito bem. Fale então.

E, daquela conversa ao início do namoro, passaram-se uns poucos dias. Mário conhecera seus pais, Coronel Figueiredo e Dona Áurea, ambos afáveis, ele bem mais velho que ela. Já transferido por muitas vezes e para muitos lugares, o Coronel adquirira um conhecimento que independia de sua condição de militar. Não sabia muito bem esclarecer porque optara pela carreira, mas tinha consciência do nível de vida que vivia, acima da média, e do respeito que lhe era oferecido por todos com quanto convivia. Em uma ou outra conversa de fim de semana, deixava escapar suas mágoas com as promoções que perdera. Admitia não ter um coração de militar típico, durão, intransigente e insensível na aparência. Questionava com freqüência alguns dos métodos aplicados nos quartéis e até mesmo fora do convívio da caserna.

Ao longo dos anos, por conta de sua inegável capacidade de ouvinte atento e conciliador nas horas de conflitos, em torno de si criara a imagem de não decidir com presteza, de ser ponderado em demasia e pouco severo nos julgamentos, não carregando, portanto, o perfil necessário a um oficial de alta patente, muitas vezes detentor de segredos de estado.

Restara-lhe o conforto de ser respeitado por todos como um homem íntegro, e as facilidades de que gozava após ser deslocado para um posto administrativo.

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