Meu caro amigo, assim você nos leva a ficar tão emocionados quanto ao ouvi-lo cantar. Hoje cedo, já trabalhando ouvi falar de você. E, como é de meu feitio nestes momentos, me afastei dos outros, sai à rua para dar alguns passos e conversar com meus pensamentos. E acabei por ir muito longe no tempo. Reportei-me à minha infância no sul, gaucho que sou.
Voltei a Porto Alegre, lá por 1951 ou 1952, quando, com minha mãe ao piano, eu me atrevia a cantar “Alguém com tu”. Ela, e toda sua família, em sua maioria atuando na área artística musical, possuíam grande admiração pelo Dick Farney, então, a maioria das músicas com que iniciei minha vida de “cantor de chuveiro”, eram algumas das que ele havia composto ou gravado.
Tempos depois, com apenas 17 anos, um de meus primos, Claudio Slon, vem para o Brasil com seus pais e irmão, e se torna baterista de nosso ídolo. E passa, pelo resto da vida, a trata-lo por “meu pai da música”. Segue seu caminho no "Brasil 66", com Sérgio Mendes, e vai para os Estados Unidos. Meu outro primo, Victor Biglione, que muito menino, apenas 4 anos, aporta em nossa terra, torna-se, ainda muito jovem, um ícone da Guitarra, e trabalha, tocando e compondo, com todos os grandes músicos brasileiros, inclusive com você, Emílio!
Eu, que continuo por estas plagas, e me torno um profissional cigano, passo pelo Brasil, de Porto Alegre a Manaus, mas sem me desapegar da boa música e sem deixar de escutar os bons intérpretes. Uma das grandes emoções que vivi ocorreu na noite em que, ao entrar na Night and Day, me deparo com Jamelão a cantar “Ela disse-me assim”. E, de alguma forma, você é o Jamelão renascido.
E minha caminhada de lembranças pela vida e pela música seguiu adiante, lembrando amigos que fiz por onde passei. Roberto Barradas, Adilson Ramos, Altemar Dutra, João Carlos Vinhas, Ivon Cury, Claudette Soares, Tito Madi, Claudinha Telles, Marcos Valle, muitas vezes parceiro de meu outro primo, Victor Biglione, Cauby Peixoto, Carlos Cola, Zezé Motta, e muitos outros, é claro, sendo eu o parceiro-fã das canjas de fim de noite.
Então reencontrei você em meus devaneios, muito antes de conhecê-lo. Tenho cinco filhos, a quem criei com muito apego e música. Na sua fase das “Aquarelas”, Emilio, as tinha todas no carro ou em casa. E as ouvia cheio de encanto, tomado pela poesia que passava. E, quando meninos, nós dois, pois apenas um ano nos separa, ouvíamos dizer que aquarelas eram quadros, pinturas.
Assim, hoje a você me dirijo tratando-o por “grande pintor e amigo”. E lhe conto alguns fatos, passagens outras, nas quais você esteve comigo. Uma delas, quando, com apenas 7 ou 8 anos, Emanoelle, uma de minhas filhas, na boate de um hotel, aonde eu me arvorava a entoar Dick Farney, me pede que, junto com ela, cantasse “Verdade Chineza”.
E, mesmo eu, que era o responsável por isso, afinal o “dono” das músicas que a família escutava, me peguei surpreso e emocionado com o que já conseguira passar de bom gosto a eles, bem como por vê-la cantar a letra toda de forma perfeita. E, com Danilo, outro dos filhos, pouco mais adiante, quando saiu seu “Perdido de Amor”, uma homenagem sua ao grande Dick Farney.
Eu, que sempre, como falei antes, cantei “Alguém como tu” desde pequeno, o fazia bem diferente de Dick. E, ao escutar você interpretando esta música, de Danilo, escutei o maior elogio à minha longa vida de “cantor”. Simplesmente, ele falou: - Pai, o Emilio Santiago canta igualzinho a você!!!
Imagine amigo, o que senti naquele momento. Era a glória! Saber que Emilio Santiago, um monstro de grande voz suave, aveludada, que também poderia ser um tenor de nossa música popular, cantava Dick Farney igual a mim! Foi emoção pura, que revive até hoje, quando me permitem dar uma canja em qualquer lugar, mesmo que em uma roda de amigos.
Depois, pode ser que você nem mesmo lembre, afinal o artista é centro das atenções, e nós, seus fãs, por mais próximos e frequentes que sejamos, orbitamos em torno dele. Mas por duas ou três vezes estivemos a trocar algumas palavras em seus finais de apresentações. Ou, como, na Nossa Senhora de Copacabana, saída do teatro, juntos à porta, aguardando nossos carros, conversamos mais longamente.
Hoje, por sua causa, sou acusado por meus filhos de ter-lhes praticado lavagem cerebral. Porque, todos juntos, cantamos pelas festas e reuniões que a vida nos propicia, os seus Saigon, Perdido de Amor, Verdade Chineza, Alguém como Tu, Uma Loira, todas elas pedaços dessa maravilha de cenário que você pintou ao longo dos anos.
Assim é amigo, que, em alguns minutos, o filme passou rápido em minha mente, enquanto eu me refazia e me recompunha. Era obrigado a retomar meus afazeres, e assim o fiz. Deixei para conversar com você agora á noite, dedicando-lhe o tempo e a tranquilidade que você mereceu sempre de nós. E é o que faço agora.
Caro Emilio, você não nos deixou, porque está entranhado em nós! Poxa cara, que brincadeira é essa? Permitir que digam o que estão dizendo por ai! Você está a nos pregar uma peça! E, daqui a pouco, como vi no noticioso da televisão, estará de novo a brilhar no Flávio Cavalcanti! Ah cara, quantas vezes corri contra o tempo para poder te escutar ou ver na tv!
Então, para com isso! Brincadeira tem hora! Somos ou não somos amigos? Não fique nessa de querer homenagens! Nosso carinho e admiração por ti, desde o primeiro dia em que te ouvimos, é nossa melhor e constante homenagem, ao longo da vida toda! Você continua Caro Emílio! Mais vivo do que nunca, com suas canções que tanto nos emocionam, e com sua inigualável voz!
Abraço do Victor
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